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De alguma forma tenho acesso ao contato diário com anciões. Posso observar todo o processo de lenta degradação da vitalidade humana. Já imaginas que sou funcionário de um asilo… Não estou aqui para lhe dar certezas.
Todos os dias estou pronto a satisfazer necessidades que os corpos fracos já não podem realizar por si só. Há algo de benevolente em minhas ações, sem sombra de dúvidas. Mas ganho para isso. Enfim, há um entrelace de interesses que se comunicam reciprocamente de uma forma que não me sinto capaz de elucidar.
Manhã ensolarada de sábado. Há tempos os velhos não podiam desfrutar de um passeio pela área verde do abrigo. É um tempo de chuvas frequentes, afinal. No já referido passeio, eles podem exercitar a musculatura carcomida, conversam entre si num saudável processo de sociabilização. Percebe-se sorrisos em suas faces que outrora, e na maior parte do tempo, expressam algo de lúgrube e mórbido. Os que ainda usufruem de alguma consideração por parte de suas crias recebem visitas - algumas deveras forçadas por algum intento execrável - e, se assim for o caso, saem para passeios mais demorados. O que me impressiona de forma intensa é pensar na expectativa da volta ao ambiente familiar, ao convívio com as gerações mais avançadas de sua linhagem. Lógico que tal esperança por parte dos velhos é logo obliterada assim que estão de volta ao asilo. De qualquer forma, tais manhãs - ou dias inteiros - são positivas aos residentes deste modesto abrigo.
Sou encarregado da limpeza dos cômodos e aproveito o momento em que os idosos estão fora. Lembro-me que um dos quartos precisa de reparos num móvel antigo. Levo para lá minhas ferramentas. Sigo pensando em minha velhice…
É o quarto 25. Vejo numa ficha de controle que o residente se chama Álvaro; Álvaro Gonçalves. Atende pela alcunha de Manduca. A porta está fechada. Bato e não recebo resposta. Utilizo uma chave-mestra e me surpreendo com uma cena hedionda. O velho manduca se contorce em espasmos convulsos sobre a cama repleta de excrementos liquefeitos. O fedor que me atinge ao abrir a porta faz com que minhas vísceras se movimentem violentamente. Após recuperar-me da ânsia súbita chego ao pé da cama do animal que sobre ela continua com uma coreografia demoníaca. Numa dança grotesca seus membros se contorcem de forma inexplicável. Grunhidos guturais ele libera enquanto os movimentos realiza.
Minha própria percepção está alterada. Alguma emanação entorpeceu meus sentidos. O quarto parece se recolher em si próprio numa curvatura claustrofóbica, como se fosse um predador a lentamente abocanhar uma presa mais desavisada. Minha voz torna-se um mero sopro enquanto um suor gélido escorre de minha testa. A impressão que tenho é a de que estou dividindo com esse velho alguma espécie de transe espiritual… Inexplicável tortura que não aplica sobre mim dores, mas sim tormentos psíquicos severos.
Em busca de livrar-me dessa possessão, procuro golpear o velho que padece sobre a cama. Tenho a impressão de que é dele que todo esse processo nefasto provêm. Vou cambaleante até a caixa de ferramentas que trouxe para o conserto do móvel antigo. Um martelo será suficiente para matar o velho. Volto em direção à cama e, sobre ela, um
Gato se põe a me observar. Os dois olhos daquele Gato preto estão a me encarar atentamente. Aturdido com a visão do felino medonho, sem pensar lanço um golpe sobre ele. Acerto a parte frontal da cabeça do animal que a plenos pulmões libera um som indescritível. Ele convulsiona ao chão liberando uma escuma branca na forma de vômito. Do olho esquerdo, um pouco afundado para o interior da cabeça, na deformação craniana, vaza uma substância repugnante. O velho cai violentamente sobre a cama imunda. Imóvel.
Observo, agora que os movimentos cessaram, o aspecto do corpo do homem. Está com uma magreza de cadáver. As pontas dos ossos formam ondulações salientes sob a pele enrugada. Meus sentidos ainda entorpecidos, de forma canhestra, percebem toda a fealdade do velho. A face macilenta, cor de chumbo, possui covas profundas. Cor de chumbo… Os lábios estão todos consumidos por feridas vivas e brilhantes. Os olhos de Manduca parecem pular de suas órbitas. Encaram o teto com espanto. Totalmente calvo.
De súbito ele levanta o peito, infla as costelas, como que buscando ar. Repete o movimento. Para minha surpresa outras contorções esse desgraçado corpo produz, contorções essas ainda mais bizarras. Todas as deturpações sensoriais que me abatem se elevam a níveis paralisantes. Seria isto a morte? Sufocante. Com uma fúria virulenta, o martelo, já sujo com pêlos e sangue do Gato preto, atinge a face de Manduca. Ele não grita, parece não sentir dor alguma e, o que é pior, ainda se contorce! A testa já afundara com este golpe certeiro. Lanço outros, repetindo instintivamente as marteladas precisas até que aquela face seca está totalmente deformada. Olhos saltados de suas órbitas.
Massa encefálica e sangue se misturam ao suor do corpo, às fezes que já encrostavam sobre o lençol infecto. Maxilar partido em várias faces. Desumanizado em suas formas exteriores…Os movimentos extremos agora se resumem à tremores nos dedos das mãos de Manduca. Ainda me sinto dominado por alguma força degenerativa que se esvai devagar, ao passo que vou perdendo minha consciência gradualmente. Um sono abate meu corpo.
Por um tempo impreciso, dormi…
Acordo cercado pelos idosos que cuido diariamente. Exibem uma expressão que mescla preocupação e alívio. Trazem-me um desejum generoso. Ao levantar, procurando uma posição adequada à minha alimentação, observo, à beira da porta, a espreitar silenciosamente, aquele mesmo Gato preto de outrora. Uma vertigem faz com que eu
derrube o suco que uma senhora trouxera até mim. Mais ao fundo, encurvado pela velhice, e com o mesmo olhar mortífero do Gato, está o velho Sr. Álvaro Gonçalves: Manduca.